quinta-feira, 30 de agosto de 2012

DISLEXIA É PRECISO AVALIAR.



Dislexia: “Para os educadores e professores
 não andarem às escuras é preciso
 avaliar a criança"
Andreia Lobo 

A Associação Portuguesa de Dislexia vai propor ao
 MEC a aplicação de um instrumento de avaliação precoce
 do distúrbio em crianças em idade pré-escolar.
Palavras sem acentos, sem cedilhas, sem traços nos te. Trocas de os
por us, de es por is, de s por z
cedilhas por dois ss
 Palavras incompletas. Elementos de frase
 que não concordam em gênero, 
 número ou verbo. Estes são alguns dos
 indicadores de dislexia visíveis numa criança nos 
primeiros anos de escolaridade. Mostram um 
 desnivelamento de certas pré-competências que 
precisa de ser compensado durante o percurso educativo.

Mas não é preciso esperar pela aprendizagem da
 leitura e a escrita para diagnosticar este distúrbio. A 
 Associação Portuguesa de Dislexia (DISLEX) e
 uma equipa educativa de um agrupamento de escolas 
de Viseu, constituída por uma terapeuta da fala, psicóloga, 
professor e educador especializados, 
criaram um conjunto de provas que permitem mostrar quais as
 pré-competências não desenvolvidas
 em crianças com cinco anos. Helena Serra, presidente da DISLEX
 e coordenadora deste grupo, 
pretende sensibilizar o Ministério da Educação e 
Ciência (MEC) para a necessidade de aplicar
 este instrumento de avaliação de forma obrigatória
 no ensino pré-escolar.

O pré-escolar e os primeiros anos de escolaridade
 são os períodos ideias para começar a 
trabalhar o cérebro disléxico. 
"Mas para os educadores e professores não andarem às
 escuras é preciso avaliar a criança e diagnosticar
 que áreas cerebrais concretamente não estão a responder
 àquilo que é esperado naquela idade", 
explica Helena Serra. A partir daí é necessário traçar o perfil 
de desenvolvimento do aluno. E avançar com 
"técnicas próprias" para trabalhar o conjunto de pré-competências
 que estão desniveladas e no futuro vão 
gerar problemas na leitura e na escrita. "O treino vai minorar
 essa desvantagem até se alcançar
 um grau satisfatório de resposta de modo a que as pré-competências 
fiquem mais ágeis no 
seu funcionamento, pela exigência do seu processamento".

Compreender as dificuldades Existem variados exercícios 
para trabalhar a dislexia, considera Helena Serra, ela 
própria autora de alguns. Faltava apenas um instrumento 
para avaliar especificamente 
quais as áreas problemáticas. 
Pelo menos até ao momento em que decidiu reunir uma 
equipa de profissionais e criar um. Trata-se de 
um conjunto de provas que vão pôr a criança em situações
 de desempenho: em linguagem compreensiva 
e expressiva, em fonologia, no que toca à lateralidade 
(direita/esquerda), a noções de espaço e do tempo,
 também de discriminação de memória auditiva e 
visual e motricidade fina.

Aspetos que, segundo Helena Serra, "estão absolutamente 
 interligados e são o alicerce de uma boa entrada
 na leitura e na escrita e que devem estar a
 um nível pronto de desempenho
 da tarefa". Até porque, 
continua, "o primeiro ano de escola vai apelar a
 simbolizações em cima de simbolizações a qualquer criança". 
Cada letra tem um som e um grafismo e essa associação 
grafema-fonema no cérebro de um disléxico pode 
estar muitas vezes posta em perigo. No entanto, a bem
 da aprendizagem, "essas pré-competências 
têm de estar à boca de cena", esclarece a investigadora.

Através das provas de avaliação, que se encontram em 
fase de pré-teste, mesmo sem formação em dislexia, 
"o educador consegue entrar na compreensão das dificuldades 
do aluno", garante Helena Serra. E, assim, 
perceber se as noções de direita e
 esquerda ainda estão confusas. Ou mesmo se o aluno
 memoriza ou não de forma sequencial as
 palavras propostas. Se as respostas nas provas forem
 desadequadas dá-se o sinal de
 alerta. Depois é preciso intervir, diz Helena Serra.

"O educador fica logo com o perfil do aluno e em
 tempo útil, como o trabalho no pré-escolar é 
mais flexível, tem toda a possibilidade de trabalhar
 mais intensivamente as áreas da criança onde 
 detetou o desnivelamento." Caso contrário, corre o 
risco de ir para o 1.º ciclo sem a segurança desejada.
 Por isso, "é preciso agir precocemente para prevenir
 os erros maiores de leitura
 e de escrita e as dificuldades de grande monta".

Helena Serra acredita na validade da aplicação do instrumento
 que descreve como sendo de
 "utilização simples e carácter pedagógico". Por isso, a 
equipa responsável pelo projeto solicitou 
já uma reunião de trabalho com o MEC para o apresentar. 
O objetivo: discutir vários aspetos sobre 
dislexia, incluindo a prevenção dos problemas de leitura e 
escrita, mas também convencer o
 Ministério a tornar obrigatória a utilização do instrumento
 "avaliativo e preventivo" que criaram.
 "A nossa ideia é aplicar as provas a toda e qualquer criança 
e não apenas à que está a sugerir
 ter problemas, porque ficava aí um critério falacioso e
 subjetivo e isso não pode ser."

Assim, a sugestão a levar ao Ministério passa por disponibilizar
 centralmente estas provas
 científicas e exigir do agrupamento a sua aplicação no terreno. 
Se forem aplicadas em janeiro ou
 fevereiro do ano letivo em que a criança está a frequentar
 o pré-escolar, sobra tempo, 
afirma Helena Serra, para trabalhar as pré-competências
 necessárias até à sua saída para
 o 1.º ano. Nesses meses, "virão ao de cima as áreas que 
estão com baixo desempenho e 
o educador pode direcionar para elas o trabalho 
utilizando várias estratégias", 
além disso, "como tem uma organização flexível na 
sala até pode pôr a turma toda a 
fazer exercícios e atividades lúdicas, desenvolvendo 
estratégias que vão 
beneficiar não só essas crianças específicas mas
 todas as outras", assegura.

Sobre os materiais existentes, a presidente da 
DISLEX afirma que a associação
 vai fazer uma recolha de algumas estratégias 
para futura publicação:
 "Há muita coisa avulsa, vários cadernos que
 trabalham a lateralidade, etc., 
mas queremos evitar aquele sentimento de que as 
orientações estão todas dispersas
." Caberá depois ao educador decidir qual dos
 instrumentos a adotar:
 "O importante é que saiba que determinado problema se trata com
 determinada estratégia e materiais daquele tipo."

Minimizar falhasA grande discussão proporcionada pelas 
alterações do MEC à realização 
dos exames nacionais pelas crianças disléxicas significa para
 Helena Serra uma oportunidade
 para "arrumar a casa". Na audiência que espera vir a ter no 
Ministério, a DISLEX vai ainda propor um conjunto de medidas
 para minimizar as falhas
 detetadas e preparar melhor a atuação no futuro. Até porque a 
necessidade de atuar
 na prevenção não exclui, segundo Helena Serra, "a urgência de 
resolver a questão dos alunos que 
não tendo passado por estes enriquecimentos, estão no terreno
 a precisar que façam alguma coisa 
com eles". Acresce que a avaliação preventiva, sugerida
 aos cinco anos, pode ainda 
ser feita no 2.º ano de escolaridade. "Vamos admitir que 
o 1.º ano é de adaptação àquele 
novo espaço e no 2.º ano se persistirem as tais dificuldades 
é preciso intervir!"
 Nesse caso, explica Helena Serra, "as provas são um
 bocado diferentes, seguindo um 
modelo equivalente ao usado no pré-escolar, mas incluindo um 
nível de competências já iniciadas em leitura e escrita".

Considerando o clima de contenção financeira, Helena Serra 
insiste que não vai pedir ao
 Ministro para criar nada de novo: "Vamos sugerir o direcionamento
 do que existe". Antecipando
 uma resposta negativa, pela falta de professores especializados, 
a presidente da DISLEX preparou dois modelos de suporte à
 proposta que levará à Rua 5 de Outubro:
 "Ou entra mais alguma unidade com 
especialização nos agrupamentos, em função do número de alunos, 
que fica para estes casos de dislexia e
 assume no terreno o que precisa de trabalhar com eles. 
Ou aproveita-se a unidade de professores de
 apoio educativo - que é uma estrutura disponível para 
 qualquer criança - e dá-se-lhes uma 
formação de 50 horas para saberem como se trabalha
 um cérebro de um disléxico."

E assim se resolve a questão: "Se estes professores dos
 apoios que tiveram 
esta formação, em vez de estarem com os alunos disléxicos 
a fazer o mesmo 
que o professor não especialista faz na sala de aula, 
ficam ensinados a usar estratégias 
específicas, exercícios que vão elevar as competências 
 desses alunos para um nível 
aceitável". E para que não restem dúvidas sobre as
 suas intenções, a presidente da
 DISLEX esclarece: "Não precisa de ser a associação a 
formar estes professores, 
embora já o tenhamos feito por todo o país, pode ser o 
Ministério a definir os autores, 
os instrumentos e a contratualizar isso com escolas 
superiores de educação." 

FONTE: http://www.educare.pt/educare/Atualidade.Noticia.aspx?
contentid=C30C0A8C909F0E77E0400A0AB80001BA
&opsel=1&channelid=0

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